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Seja bem vindo (a)!
Vamos trocar idéias, bater papo...















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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago, o futebol e os sonhos...

José de Sousa Saramago , nasceu em Portugal, Azinhaga, Golegã em 16 de Novembro de 1922 —  faleceu na Espanha Lanzarote, Ilhas Canárias em 18 de Junho de 2010,  foi escritor, argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português.


Filho e neto de camponeses analfabetos e sem terra, foi ganhador do Premio Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa.




Saramago em dialogo informal com Luiz Figo (Ex-jogador de futebol, craque do Benfica, Real Madri e Seleção Portuguesa de Futebol), após alguns resultados negativos do esquadrão Lusitanos:
 



"O grande problema nacional é a mediocridade e a resignação à mediocridade. O que é um pouco contraditório. Porque temos sonhos de grandeza e o Campeonato Europeu de Futebol é um caso..."
"O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas.
O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas..."

sexta-feira, 11 de junho de 2010

quinta-feira, 10 de junho de 2010

E SE

Em 1980 Francis Hime junto com Chico Buarque compõem a musica “E SE”, onde fazem citações ao Botafogo e Arapiraca;

“E se o oceano incendiar
E se cair neve no sertão
E se o urubu cocorocar
E se o Botafogo for campeão
E se o meu dinheiro não faltar...

E se tiver sopa pro peão
E se o oceano incendiar
E se o Arapiraca for campeão
E se à meia-noite o sol raiar
E se o meu país for um jardim...”

A brincadeira mexeu com os brios dos times que andavam mal das pernas, mas o fato e que em 1989 Botafogo foi campeão Carioca e em 1995 Campeão Brasileiro.  Já o Arapiraca demorou um pouco mais para reagir, mas em 2000, após jejum de 47 anos, sagrou-se Campeão Alagoano.

Revolução dos Cravos, futebol e censura

Em abril de 1974 acontecia em Portugal a Revolução dos Cravos, movimento que depusera o regime ditatorial daquele  pais.

Em 1975 Chico Buarque compõe sua saudação a Revolução,  a musica “Tanto Mar”.

O censor responsável de encrencar com a musica era Augusto da Costa – ninguém menos que o zagueiro Augusto, do Vasco da Gama e da Seleção Brasileira de 1950, responsável pela região do campo por onde os Uruguaios iniciaram as jogadas dos dois gols que deram o titulo de Campeões do Mundo a esquadra Celeste Olímpica, naquele fatídico 16 de julho.


O jornalista Humberto Werneck conta que, Chico irritou se com o censor;
“Porra Augusto, você perde a copa e ainda vem me aporrinhar”.

O zagueiro chutou a responsabilidade para cima dos carolas.
Tanto Mar, passou, mas sem letra.

A canção só foi cantada com letra no Brasil em1978, porem com nova letra, uma vez que a Revolução dos Cravos frustrou as expectativas.

Esta e outras estórias, você pode conhecer e se deliciar lendo o livro “HISTORIAS DE CANÇÕES – Chico Buarque” de Wagner Homem – Editora Texto Editores – Leya.   

 Ficha técnica do jogo citado.

Uruguai 2 x 1 Brasil (0 x 0 - Primeiro Tempo)
Local: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro - Brasil
Árbitro: George Reader (Inglaterra)

Escalação do Uruguai: Gaston Maspoli, Oscar Miguez, Juan Schiaffino, Ruben Moran, Eusebio Tejera, Victor Andrade, Mathias Gonzales, Obdulio Varela, Alcides Ghiggia, Julio Perez e Schubert Gambetta - Técnico: Juan Lopez


Escalação do Brasil: Barbosa, Friaça, Bigode, Chico, Ademir, Jair, Bauer, Augusto, Zizinho, Juvenal e Danilo - Técnico: Flávio Costa

Público: 174.000
Gols: Segundo Tempo - Friaça (2 minutos) | Schiaffino (21 minutos) | Ghiggia (34 minutos).

domingo, 16 de maio de 2010

Brasi é o país do futebol...

Afinal somos todos técnicos... e em época de Copa do Mundo de Futebol, muita gente fala das variações do tema que é tão polêmico, diverso e rico. Estratégias, resultados, desempenho, memórias, regras, gols, defesas são alguns dos temas mais falados, lembrados e descutidos.
 
Você assistiu ao BOLEIROS? E o resultado daquele jogo? Em que posição acabamos nesta Copa??? Em que ano foi transmitida a primeira Copa a cores pela TV. Foi empedimento ou não??? Tem tantas perguntas e muitas dúvidas. Além da internet, temos também uma quantidade razuavel de livros que contam historias deste nosso amado futebol.


Existe até livrarias especializadas em futebol é o caso da Livraria Pontes – Campinas,(19)-3236-9801 – www.livrariapontes.com.br, um paraíso do esporte mais popular do mundo.


Como dica, segue aqui uma relação de livros muito interessantes:




Passe de letra - Flávio Carneiro


A bola corre mais que os homens - Roberto Damatta




UNIVERSO DO FUTEBOL: ESPORTE E SOCIEDADE BRASILEIRA
DAMATTA, ROBERTO

O FUTEBOL EXPLICA O BRASIL-GUTERMAN, MARCOS


BOLA FORA - A História Do Êxodo Do Futebol Brasileiro-COELHO, PAULO VINÍCIUS


BRASIL X ARGENTINA - Histórias do Maior Clássico do Futebol Mundial (1908-2008)
SANTOS, NEWTON CÉSAR DE OLIVEIRA


SUL-AMERICANO DE 1919 - Quando O Brasil Descobriu O Futebol
SANDER, ROBERTO


O GRANDE JOGO - SANTOS X CORINTHIANS
UNZELTE, CELSO e ODIR CUNHA


TORCEDOR - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO e CAROLA SAAVEDRA


BOLEIROS DO CERRADO - Índios Xavantes e o Futebol
VIANNA, FERNANDO DE LUIZ BRITO

ARARAQUARA FUTEBOL E POLÍTICA - CIRINO, LUÍS MARCELO INACO

QUANDO O FUTEBOL ANDAVA DE TREM-BUCHMANN, ERNANI

TUDO O QUE AS MULHERES QUERIAM SABER SOBRE FUTEBOL, mas tinham medo de perguntar
FILHO, ÁLVARO

MEMÓRIAS SOCIAL DOS ESPORTES - FUTEBOL E POLÍTICA: A CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE NACIONAL
ORG. SILVA, FRANCISCO C. T. E RICARDO P.DOS SANTOS


FUTEBOL POR TODO O MUNDO: Diálogos Com o Cinema
MELO, VICTOR ANDRADE DE e MARCOS ALVITO


CARTÃO VERMELHO - OS BATIDORES DO ESPORTE
KFOURI, JUCA JOSÉ TRAJANO E OUTROS

O ESPORTE VAI AO CINEMA
MELO, VICTOR ANDRADE DE e FABIO DE FARIA PERES


CBF NIKE
REBELO, ALDO e SILVIO TORRES


A HISTÓRIA DO FUTEBOL NO BRASIL ATRAVÉS DO CARTUM
JAL & GUAL

HISTÓRIA POLÍTICA DO FUTEBOL BRASILEIRO
SANTOS, JOEL RUFINO DOS

O DESCOBRIMENTO DO FUTEBOL
HELLANDA, BERNARDO BORGES BUARQUE


Banho de Bola
Roberto Assaf

FUTEBOL E GUERRA
DOUGAN, ANDY

UM JOGO INTEIRAMENTE DIFERENTE
HAMILTON, AIDAN


VÁRZEA FUTEBOL DOS SONHOS
NETTO, EUCLIDES B. SILVA

A metamorfose do futebol - Marcelo Weishaupt


A HISTORIA DAS CAMISAS DE TODOS OS JOGOS DAS COPAS DO MUNDO
Paulo Gini e Rodolfo Rodrigues


ALAMBRADO:  Antonio Roque Citadini


BEBETO – O CANHÃO DA SERRA - Lucas Scherer

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Crônica e Futebol


Manifestação cultural que permeia o cotidiano brasileiro, o futebol é assunto diário na mídia e aparece como tema em várias obras literárias. Na mídia, são inúmeros os jornalistas, ex-jogadores e especialistas no assunto que escrevem sobre o esporte. Escritores também profissionais ou colaboradores do jornalismo, Lima Barreto, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Nélson Rodrigues, Edilberto Coutinho, Mário Filho, Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Affonso Romano de Sant’Anna, João Cabral de Melo Neto, Luis Fernando Veríssimo, José Roberto Torero, Roberto Drummond... são alguns dos que fizeram prosa ou poesia com o futebol.

Gênero híbrido, arte literária e jornalismo; na mídia, a crônica é que trata o esporte com mais subjetividade do que as matérias e reportagens; na literatura, é o gênero em que mais aparece o futebol como temática. Dessa maneira, torna-se interessante investigar textos que registrem e recriem fatos e impressões desse esporte, verificando, no jornal e no livro, a postura do cronista, o tratamento do tema, o nível de subjetividade e os efeitos estéticos apresentados pelos textos, observando como esses recursos são importantes para a superação da facticidade nas crônicas.

Crônica e futebol

Ligada à vida cotidiana, a crônica é o espaço discursivo no qual o cronista registra sua visão da vida, das pessoas, das práticas culturais, comportamentos e fatos. Esse registro caracteriza-se, grosso modo, pela informalidade, sensibilidade no contato com a realidade, brevidade e leveza. Entretanto, diferentes textos revelam diferentes níveis dessas características em sua composição, sendo os que transcendem o factual e a objetividade – características do texto jornalístico – os considerados mais instigantes do ponto de vista literário, pois a crônica “tem como principal problema, para se transformar num gênero literário propriamente dito, libertar-se de suas limitações jornalísticas.” (Portella, 1958, p. 114).

Também no caso das crônicas cuja temática é o futebol, é possível separar, de um lado, textos predominantemente técnicos e/ou informativos e, de outro lado, ficariam os textos marcados por informalidade e tom de bate-papo, alguns com uma carga de subjetividade e superação do factual, da referencialidade e da automatização do uso da língua, em maior ou menor nível.

Na segunda fase do projeto “Afinidades da crônica brasileira: particularidades e confrontos”, coordenado pelo professor Luiz Carlos Santos Simon na Universidade Estadual de Londrina (UEL), foram pesquisados textos de cronistas consagrados e recolhidos textos de cronistas que escrevem atualmente em revistas semanais e mensais e jornais de vários estados brasileiros. A pesquisa, além de mostrar uma grande quantidade e atrativa qualidade de cronistas, mostrou o número significativo de cronistas que têm o futebol como assunto principal e/ou exclusivo. É interessante notar que, apesar de a maior parte dos escritos referentes a futebol ter caráter técnico e/ou informativo, a subjetividade e a sensibilidade ainda encontram espaço.

Escolhemos, para esse trabalho, textos da coluna “Boleiros”, um espaço do jornal O Estado de São Paulo em que são publicadas crônicas voltadas exclusivamente para o assunto futebol. Nessa coluna, sete cronistas escrevem, um a cada dia da semana. Como comentado anteriormente, há crônicas informais e subjetivas, em maior ou menor grau. Para discutir – brevemente – os textos que falam de futebol, foram escolhidos, da citada coluna, dois textos de cronistas diferentes. Também foi selecionada para a discussão uma crônica de um cronista consagrado, já publicada em livro. Esta servirá não de modelo ou ideal de crônica, mas sim de parâmetro para a discussão dos níveis, já indicados, geralmente tratados pelos Estudos Literários como caracterizadores, no gênero em questão, de superação da facticidade do jornalismo objetivo. As crônicas escolhidas: “Craque agora é o diretor”, de Ugo Giorgetti, “Para começar o ano”, de Nando Reis, e “Adoradores da bola”, de Paulo Mendes Campos.

Na crônica, temos um “eu” que se dirige ao leitor e comenta sobre um ou mais assuntos, conta um fato ou uma história. Chamamos, neste trabalho, essa instância enunciativa da crônica de “eu do cronista”. A forma como esse “eu” – que não deve ser confundindo com o eu biográfico do cronista – constrói sua subjetividade no texto é a chave para identificarmos sua visão e posição em relação ao tema e ao leitor, sua proximidade com este. Isso e os recursos estéticos usados serão rapidamente analisados nas crônicas a fim de verificarmos a medida da facticidade e da sensibilidade dos textos deste gênero que tratam de futebol.

“Craque agora é o diretor”

A crônica de Ugo Giorgetti faz referência à falta de craques por que passa o futebol brasileiro e as implicações disso nas competições. O eu do cronista inicia a crônica fazendo uma projeção do esporte em 2007: “Para os amantes do futebol, porém, uma previsão ao menos não é muito agradável. Ouso fazê-la assim mesmo” (Giorgetti, 2006). Ele se coloca em primeira pessoa, mas não se inclui, ainda, entre os amantes do futebol.

No segundo parágrafo da crônica, o eu do cronista se dirige ao leitor – “É bem possível, meu amigo, que seu time caia para a série B em 2007” (Giorgetti, 2006). Isso ocorre em todo o texto, sendo a função conativa destacada no texto. A “conversa” com o leitor inclui instruções, inseridas a partir do quarto parágrafo: “Preste atenção no seu clube. Observe seu treinador. Veja se ele é comprovadamente competente” (Giorgetti, 2006). O eu do cronista lida com o leitor como se estivesse orientando-o sobre como torcer e o que fazer no ano que chega.

No terceiro parágrafo, a tese do eu do cronista – de que qualquer time pode ser rebaixado para a série B do Campeonato Brasileiro, explicitada no segundo parágrafo – começa a ser defendida.

O Brasileiro já faz tempo se tornou um torneio disputado praticamente só por grandes clubes. A maioria tem teoricamente condições de disputar o título, mas tem as mesmas condições para despencar para a Série B. O futebol brasileiro está empobrecido de craques e esquadrões, portanto as superioridades se dão fora do campo, na organização das equipes, na capacidade dos treinadores e na competência dos diretores.

Num campeonato tão equilibrado qualquer erro pode ser fatal. Se um clube começa muito mal, se a moral despenca, o já limitado elenco pode entrar em processo de ansiedade e angústia e nesse estado está a um passo do abismo da Série B. Uma ou duas contratações equivocadas e é o suficiente. Uma troca de treinador precipitada e lá está o fantasma da Segundona. Isso, repito, pode acontecer com qualquer um dos clubes que disputam o brasileiro (Giorgetti, 2006).

A longa citação torna mais clara a análise. O eu do cronista comenta, mesmo com linguagem informal em um ou outro momento, de maneira bastante técnica o esporte. Ou seja, a postura é a de um especialista que alerta ao leitor-torcedor sobre a situação dos times no campeonato brasileiro. A referencialidade é grande e continua assim em toda a crônica.

O quarto parágrafo, conforme já citado, tem as instruções para o leitor acompanhar o futebol em 2007. A linguagem continua técnica e a opinião do eu do cronista se explicita, reforçando sua tese: “Já se sente certa exaustão no tão falado celeiro de craques que é o Brasil” (Giorgetti, 2006). No parágrafo seguinte, em que o leitor recebe a instrução de rezar “para que seu treinador saiba 'montar uma equipe'.” (Giorgetti, 2006), o eu do cronista explica, tecnicamente, o que é saber montar uma equipe.

Nesse parágrafo há a inserção de um fato particular, quando da citação do caso do clube gaúcho Internacional:

Mesmo campeão mundial, outro dia um amigo, depois de um gole de chope, fez observação curiosa: 'Você reparou na defesa do Inter? Clemer estaria entre os melhores goleiros do País? E Índio, que foi dispensado do Palmeiras? E Fabiano Heller? Também dispensado do mesmo Palmeiras (Giorgetti, 2006).

Ao que o eu do cronista completa, afirmando que a mudança no Inter foi provocada, na verdade, por alterações na diretoria do clube. Ele encerra, dirigindo-se novamente ao leitor, para que este fique atento porque “o craque do seu time vai ser o diretor do Departamento de Futebol” (Giorgetti, 2006). O sujeito que comenta mostra-se, no texto, como um especialista no assunto, que detém autoridade para ironizar o assunto. A subjetividade é restrita ao uso da primeira pessoa e à explicitação da opinião da instância enunciativa; o olhar do cronista é lançado ao esporte por uma perspectiva técnica, distanciada e objetiva. Além disso, o texto apresenta alta referencialidade e dependência dos fatos para ser compreendido. O interessante da crônica fica por conta da relação intertextual com as práticas discursivas referentes à previsão do futuro, pois o modo como o eu do cronista fala com o leitor se apropria da forma destes textos: a previsão, as instruções.

“Para começar o ano”

Na crônica de Nando Reis, o eu do cronista comenta sobre o costumeiro “bater bola” dos brasileiros. Apresenta-se em primeira pessoa, mas só no segundo parágrafo: “Não sei se é o sentido da distração, do entretenimento ou o instinto da competição que abunda no sangue de todos nós em maior ou menor grau” (Reis, 2007). A marca do sujeito aparece uma vez em primeira pessoa do singular e o restante em primeira pessoa do plural, seja em pronomes pessoais, possessivos, seja nas desinências dos verbos.

A informalidade é esparsa: “pronto, está feita a festa”, “Todo mundo bate bola” e “Está perto da gente”. O recurso mais constante é a comparação e a escolha vocabular visa a um efeito poético, parecendo haver uma perspectiva estética em relação ao futebol, o que se confirma apenas no plano da linguagem.

A crônica mostra que o futebol, para o eu do cronista, é uma atividade entre inata e automática para os brasileiros: “A aptidão para o esporte é inata, é genética, é vital [...] o brasileiro é um futebolista de berço” (Reis, 2007). Tendo especificado que não estará falando de forma generalizada do ser humano, mas sim dos brasileiros, ele reforça a idéia com comparações feitas em outro trecho:

[...] a idéia de conduzir uma bola até o gol que no horizonte se avizinha soa tão lógica e natural quanto levar uma colher de arroz à boca ou espantar um pernilongo que nos azucrina rodeando a cabeça pousada no travesseiro ou picando, insistente, a perna. Certas coisas não é preciso que nos ensinem, nascem com a gente, vêm entre os genes (Reis, 2007).

Apesar de incluir-se entre os que teriam o futebol nos genes, ou seja, na crônica, todos os brasileiros, o eu do cronista, em nenhuma passagem do texto, conta uma experiência sua com o esporte. O máximo a que chega é citar que se passarmos as férias em Ubatuba (como ele?), comprovaremos suas afirmações: “Passando férias em Ubatuba, é fácil constatar: basta ver um metro livre de um guarda-sol na areia, que logo se aglutinam dois ou três indivíduos com uma bola e começam a se movimentar” (Reis, 2007). A subjetividade do eu não é construída em relação estreita com o esporte, mas sim há o esboço da imagem de alguém que gosta apenas de observar o futebol como prática cultural e a relação dos outros com ele.

O distanciamento entre o eu do cronista e objeto sobre o qual comenta se repete no decorrer do texto: “Perder a noção do tempo jogando bola é um remédio para a prisão da vida cotidiana. É fundamental que cada um de nós possa se sentir livre para ser um Pelé” (Reis, 2007). É perceptível o apreço do eu do cronista em relação ao futebol e a sua função lúdica; no entanto, não fica claro se ele também perde a noção do tempo jogando bola ou se sente livre para ser um Pelé; fica explícito apenas que ele considera isso muito importante para o homem conseguir tornar mais suave sua rotina. Pode-se afirmar, logo, que o apreço pelo esporte não inclui a prática para o eu do cronista, pois ele posiciona-se como observador:

[...] observar é apreender o gesto como forma sublime, força oculta e divina que nos faz querer ser aquele que somos, como segredo escondido, até que renascemos nos outros, alheios e emprestados. A admiração é uma forma de incutir na realidade um parâmetro de adição entre a constatação de um limite oposto ao desejo de fazer possível aquilo que só foi conhecido através da aquisição por imagem. Exemplos alargam as margens do rio onírico (Reis, 2007).

Enfatizando a importância de se observar e a carga identitária dessa ação, o eu do cronista investe-se de autoridade para comentar o esporte, seja do ponto de vista estético – “Em cada pique épico que traça o risco aéreo há o simulacro de um Romário invencível” (Reis, 2007) – seja de uma perspectiva analítica: “Bater uma bola pode ser uma experiência sobrenatural e de alta ebulição do espírito. Uma espécie de droga natural, descarregada no organismo, alimentando de originalidade o extrato químico-psíquico” (Reis, 2007).

Foi possível verificarmos que as comparações e conceituações são os recursos utilizados para elaborar o comentário acerca do tema. O futebol é visto, mesmo que distanciadamente, pelo eu do cronista, por um prisma subjetivo, em que mesmo os aspectos sociológicos (como a função lúdica) são descritos de maneira poética. Não há a dependência de eventos específicos; o tempo é o presente atemporal do objeto observado, o esporte. Dessa forma, a crônica não se prende ao factual e a função poética da linguagem é bem utilizada.

“Adoradores da bola”

Paulo Mendes Campos não escrevia exclusivamente sobre futebol. O esporte foi tema de alguns textos seus, reunidos por Flávio Pinheiro, recentemente, no volume O gol é necessário, da editora Civilização Brasileira. A crônica em questão trata da paixão dos homens pelo futebol.

O eu do cronista se apresenta na primeira pessoa do plural no texto todo, sendo a primeira ocorrência no segundo parágrafo, no qual ele explora a imaginação para ampliar a afirmação feita no primeiro parágrafo de que “O brinquedo essencial do homem é a bola” (Campos, 2002, p. 17):

Um psicólogo do futebol imagina a seguinte cena: meninos jogam na rua; a bola sobra para o cavalheiro que passa. Que fará o austero transeunte? Ficará indiferente? Devolverá a bola com as mãos? Já vimos todos nós o que ele irá fazer: o homem, sem perder a gravidade, rebate a bola com o pé, aparentemente para prestar um serviço à garotada, mas na verdade porque não resiste ao elástico e impulsivo prazer de dar um chute. É sempre um grande prazer, uma das coisas agradáveis da vida, dar um chute na bola, sobretudo quando conseguimos colocá-la na meta almejada (Campos, 2002, p. 17).

A imagem elaborada ilustra e reforça a afirmação feita anteriormente. O eu do cronista ainda se inclui, primeiramente entre os leitores que estão, a partir do texto, imaginando também a cena e que podem ter já presenciado uma semelhante e, depois, entre os que sentem prazer com prática da atividade futebolística.

No terceiro parágrafo, o eu do cronista busca argumentos de autoridade para justificar ainda mais firmemente sua afirmação. Não são, contudo, argumentos objetivos. Ele recorre ao poeta Rilke – “[....] Rilke intuiu bem os símbolos contidos na bola e no jogo da bola: a lei da gravidade e a liberdade do vôo são valores atuantes da realidade humana” (Campos, 2002, p. 17) – e ao pedagogo alemão Friedrich Fröbel – “Fröbel havia escrito: ‘A esfera é para mim um símbolo da plenitude realizada; é o símbolo de meus princípios fundamentais de educação e de vida” (Campos, 2002, p. 17). Eles não falaram de futebol, mas o eu do cronista usa suas idéias para provar que o futebol é a atividade lúdica essencial ao homem.

A partir do quarto parágrafo, o comentário é particularizado e o leitor tem acesso à experiência do eu do cronista, via narração de fatos acontecidos com este. O eu do cronista se apresenta, conforme podemos ver no texto, como o narrador que compartilha o seu vivido, pois "o narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros" (Benjamin, 1994, p. 201). Com a série de relatos, é construída a imagem de um homem apaixonado pelo futebol, cuja relação emotiva com o esporte é intensa. Esse sentimento e sua experiência são partilhados com o leitor por meio da narração: “As nossas peladas adultas começaram há mais de vinte anos no quintal dum apartamento térreo em Ipanema” (Campos, 2002, p. 18). Ele se apresenta, a partir desse trecho, com um “nós” que se refere a ele e a pessoas de sua convivência, que também jogam futebol, identificados no final do texto como “veteranos” (Campos, 2002, p. 20).

A primeira narrativa se refere a um “companheiro nosso, zagueiro de recursos” (Campos, 2002, p. 18) que reservou parte de um loteamento de uma propriedade sua para fazer um campo de futebol. O eu do cronista explica que “os que não entenderam o nosso campo tinham perdido irremediavelmente (danem-se) a infância. A infância é apenas isto: a sensação de que viver é de graça” (Campos, 2002, p. 18). Há mobilidade temática; o olhar subjetivo vai além do esporte e chega à poeticidade da definição própria para a infância.

O eu do cronista, já estabelecido também como narrador, conta sobre a oposição que ele e seus colegas de pelada tinham sofrido pela insistência em jogar e que eles mesmos passaram “a inventar as desculpas que fossem tranqüilizando os outros [...] Também eu, com pusilanimidade, escrevi por aí que estávamos correndo atrás dum restinho de infância – o que é apenas parte da verdade” (Campos, 2002, p. 19). A força da relação emocional com o futebol é novamente marcada nesse trecho, quando o eu do cronista revela, ao leitor, a verdade sobre si: “A verdade integral é a bola. O futebol paixão. Esse amor que faz um homem de quarenta e tantos anos sofrear o sono da fadiga para rememorar em câmara lenta o gol de cobertura que fez pela manhã” (Campos, 2002, p. 19).

O sujeito se mostra e se constrói no texto; sua imagem de adorador da bola é desenhada pela explicitação de sua paixão pelo futebol. Nos dois parágrafos posteriores, uma categorização dos homens conforme o tamanho de sua paixão pelo esporte é feita, numa comparação com a relação do homem com o álcool, objetivando comentar a ligação de outros adoradores da bola com o futebol, no sentido de uma identificação do eu do cronista com esse grupo. Depois, outros eventos são narrados com vistas ao mesmo fim:

Conheço um que voou de Paris para Roma a fim de pegar o avião que o depositasse no Rio a tempo de apanhar nosso torneio dominical. Outro convidado para apadrinhar um casamento em tarde de sábado, foi rude, porém sincero, colocando a noivinha nesta sinuca: um presente de duzentos no sábado ou um cheque de mil se o casamento fosse transferido para outro dia da semana. Um terceiro dava um vestido caro à mulher (a própria), contanto que ela o deixasse agarrar no gol no fim de semana, em vez de subir para as elegâncias de Petrópolis (Campos, 2002, p. 19-20).

Os relatos já citados e esses demonstram que o eu do cronista se constrói como sujeito no texto, identificado como um adorador da bola. Sua experiência e sua relação pessoal com o esporte aproximam-no do objeto de seu comentário e, com isso, do leitor que se identifica com a paixão dele pelo futebol e/ou com a explicitação de uma paixão assim. Até mesmo o grupo dos que não aprovam a atividade e a paixão do eu do cronista está presente no texto, sendo um de seus interlocutores: “Às vezes, línguas más dizem que estamos fazendo o vestibular para o Asilo São Luís. Pouco nos importa. Estejam todos certos de que levaremos uma bola para o pátio do asilo.” (Campos, 2002, p. 20).

As imagens, a narração da experiência, a mobilidade temática, o não apego a fatos – pois os eventos são usados como elementos da identidade do eu do cronista – o humor dos relatos e a proximidade do eu do cronista com o tema e com o futebol são recursos expressivos e constitutivos da subjetividade do texto. Isso torna, de fato, o texto caracterizado pela superação da facticidade, pela função emotiva e poética da linguagem destacada, pela leveza e mesmo sensibilidade.

Considerações finais

Verificamos que a crônica de Ugo Giorgetti é um texto majoritariamente objetivo e ligado aos fatos recentes, sendo a postura do eu do cronista técnica e jornalística. Foi possível constatar, por outro lado, que a crônica de Nando Reis e a de Paulo Mendes Campos, embora diferentes, destacam-se pela elaboração poética da linguagem e superação da facticidade.

O trabalho com esses textos pôde mostrar, embora a discussão tenha se limitado a um corpus pequeno, que as crônicas, inclusive aquelas cujo tema principal é o futebol, têm a possibilidade de superar a excessiva referencialidade e objetividade por meio de recursos lingüísticos e do olhar subjetivo para o tema, visto que “A crônica será tanto mais literária quanto mais fugir às exigências do espírito da reportagem, atingindo o melhor de sua realização formal quando consegue fundir os supostos contrários – a literatura e o jornalismo...” (Coutinho, 1986, p. 134).



Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994.

CAMPOS, Paulo Mendes. Adoradores da bola. In: O gol é necessário. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 17-20.

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. v. 6, 3 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.

GIORGETTI, Ugo. Craque agora é o diretor. In: O Estado de São Paulo, São Paulo, 31 dez. 2006. Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2007.

PORTELLA, Eduardo. Dimensões I. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1958.

REIS, Nando. Pra começar o ano. In: O Estado de São Paulo, São Paulo, 04 jan. 2007. Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2007.



por ANDRÊYA GARCIA DA PAIXÃO MORGADO

DRUMMOND, OUTROS POETAS E A BOLA...

"O difícil, o extraordinário não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé".

Pelé: 1.000 (1969)







"Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até o seu mistério. Entretanto, a criança menos informada o possui". Mistério da Bola (1954)



"Não há nada mais triste do que papel picado, no asfalto, depois de um jogo perdido.

São esperanças picadas". Jogo à Distância (1966)


"Perder é uma forma de aprender. E ganhar, uma forma de se esquecer o que se aprendeu". (1974)


"Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho". Mané e o Sonho (1983)


Como a senhora explicaria a um menino o que é felicidade?

Não explicaria. Daria uma bola para que ele jogasse...

Dorothee Sölle


                                           Um bom poema
um bom poema leva anos

cinco jogando bola,

mais cinco estudando sânscrito,

seis carregando pedra,

nove namorando a vizinha,

sete levando porrada,

quatro andando sozinho,

três mudando de cidade,

dez trocando de assunto,

uma eternidade, eu e você,

caminhando junto

paulo leminski


Bola de futebol...é um utensílio semivivo, / de reações próprias como bicho, / e que, como bicho, é mister / (mais que bicho, como mulher) / usar com malícia e atenção / dando aos pés astúcias de mãos.

João Cabral de Mello Neto




Nunca pense que está sozinho quando você vive futebol,respira futebol.Isso significa que você faz parte dessa paixão mundial pela bola porque futebol além de um esporte é um ideal de vida.

Vinícius




Pelé nunca será superado, porque é impossível haver algo melhor que a perfeição. Ele teve tudo: físico, habilidade, controle de bola, velocidade, poder, espírito, inteligência, instinto, sagacidade...

Jornalista do Sunday Mirror de Londres

Posso ser um novo Di Stéfano, mas não posso ser um novo Pelé. Ele é o único que ultrapassa os limites da lógica...

Johann Cruyff

A única diferença da Política para o Futebol é que, na Política, por falta de bola, eles se chutam uns aos outros

luan fernandes

segunda-feira, 29 de março de 2010

ARMANDO NOGUEIRA - Poesia na Crônica


Lá se vai o Armando, o Nogueira, o acriano de talento encantador, advogado, jornalista,  poeta cronista, redator, que tinha em seus versos a delicadeza e a suavidade que só os poetas possuem.  Ele falava como escrevia e escrevia como falava, parece obvio e simples, mas é muito difícil, diria eu que é uma arte e Armando Nogueira era um mestre na arte de escrever e de juntar as as pessoas um agregador, sempre chamando a todos de "meus queridos we minhas queridas...".

 Acreditava no reencantamento da vida e do mundo.  Afeito a ética e a estética, mostrou um caminho,   formou uma geração de jornalistas, repórteres e apresentadores que o reverenciam e fazem a comunicação dos nossos dias.

As bolas nunca retribuíram o amor e o carinho que por elas, ele tinha, sempre se mantiveram alheias, distantes, glaciais.

Bem que ele tentou, futebol, vôlei, basquete, sinuca, mas foi em seus versos que demonstrou todo o seu amor pela bola, seja num gol valendo o titulo no Maracanã ou numa pelada entre amigos de pés descalços, num campinho "desgramado", numa tarde de sol poente num ponto qualquer do planeta.

O corpo a morte leva, a voz some na brisa,
o nome a obra imortaliza..."   


“Morre o homem fica a fama”, pena. 
Armando Nogueira não morrerá jamais.

Armando você não vera a Copa da África em junho, nem a do Brasil em 2014,
ficaremos sem as suas deliciosas crônicas que fazem no dia seguinte a jogada e o gol
ficarem ainda mais lindos.

Você ao certo deve estar  agora no céu ao lado do anjo de pernas tortas
e do tricolor anjo pornográfico, fazendo mais uma de suas crônicas
sobre este reencontro que agora não se chama mais saudade.

Por aqui continuaremos amando sua amada bola, sua majestade a bola.
A cada ginga, cada jogo, cada lance, a cada drible, a cada gol,
certamente ela, a bola, estará se mostrando e se entregando definitivamente
a você ARMANDO NOGUEIRA o poeta do esporte e da bola,
da picardia e do jogo bem jogado, o poeta que amamos todos nos.
                                        Roberto Pereira Pinto


Cronica de Armando Nogueira quando Zico se despediu do futebol:

"A última noite"
Maracanã, enfeita de bandeiras tuas arquibancadas que hoje é dia de festa no futebol. Encomenda um céu repleto de estrelas. Convida a lua (de preferência, a lua cheia). Veste roupa de domingo nos teus gandulas. Põe pilha nova no radinho do geraldino. E, por favor, não esquece de regar a grama (de preferência, com água-de-cheiro). Avisa à multidão que ninguém pode faltar. É despedida do Zico e estou sabendo, de fonte limpa, que, hoje à noite, ele vai repartir conosco a bela coleção de gols que fez nos seus vinte anos de Maracanã. Eu até já escolhi o meu: quero aquela obra-prima, o segundo gol do Brasil contra o Paraguai nas Eliminatórias do Mundial de 1986. Lembro-me como se fosse hoje. Zico recebe de Leandro um passe de meia distância já na linha média dos paraguaios. Um efeito imprevisto retarda a bola uma fração de segundo. Zico vai passar batido - pensei. Pois sim. Sem a mais leve hesitação, sem sequer baixar os olhos, ele cata a bola lá atrás com o peito do pé, dá dois passos e, na mesma cadência, acerta o canto esquerdo do goleiro paraguaio. Passei uma semana vendo e revendo no teipe aquele instante mágico de um corpo em harmonioso movimento com o tempo e com o espaço. E a bola, coladinha no pé, parecia amarrada no cadarço da chuteira. Um gol de enciclopédia. Se o amável leitor aceita uma sugestão, dou-lhe esta: escolha um dos gols que Zico fez graças à sua arte singular de chutar bola parada. Chutar a bola de falta à entrada da área é um talento que Deus lhe deu mas não de mão beijada, como imaginam os desavisados. Zico trabalhou seriamente, anos e anos, para alcançar a perfeição dos efeitos sublimes. À tardinha, quando terminava o treino, ele costumava ficar sozinho no campo do Flamengo - ele, uma barreira artificial, uma bola e uma camisa caprichosamente pendurada no canto superior das traves. A camisa era o alvo. 

Zico passava horas sem fim, chutando rente à barreira e derrubando a camisa lá de cima das traves. Chegava o domingo, na cobrança da falta, a bola já estava cansada de saber onde ela tinha que entrar. Não tenho dúvida em dizer que tardará muito até que apareça alguém que domine como Zico o dom de cobrar falta ali da meia-lua. Celebremos, querido torcedor, a última noite do maior artilheiro da história do Maracanã. Será uma despedida de apertar o coração. Se te der vontade de chorar, chora. Chora sem procurar esconder a pureza da tua emoção. Basta uma lágrima de amor para imortalizar o futebol de um supercraque. Cantemos, Maracanã, teu filho ilustre, relembrando em comunhão os dribles mais vistosos, os passes mais ditosos, os gols mais luminosos desse fidalgo dos estádios que tem uma vida cheia de multidões. Louvemos o poeta Zico que jogava futebol como se a bola fosse uma rosa entreaberta a seus pés. "



Futebol Arte

A bola


Homenagem JN - Armando Nogueira

Vossa majestade - A Bola

domingo, 14 de março de 2010

A BOLA

Texto de Armando Nogueira e a narracao de Paulo Jose

terça-feira, 9 de março de 2010

Peladas - Armando Nogueira


Peladas
Armando Nogueira

"Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto.
E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: "eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe." Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.
Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro jogo sem camisa.
Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula.
Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.
Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: "Copa Rio-Oficial", "FIFA - Especial." Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepção do Itamarati.
No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha.
Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura.
Nova saída.
Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas.
O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar.
Em cada gomo o coração de uma criança".